sexta-feira, 8 de setembro de 2017

«RAINHA SANTA»

Navio-motor português, destinado à pesca do bacalhau. Foi construído nos estaleiros da Gafanha da Nazaré sob o controlo técnico de mestre Benjamim Bolais Mónica, por encomenda da empresa armadora Pascoal & Filhos, Lda.. Foi lançado ao mar no dia 15 de Março de 1961. Tinha casco em madeira, uma arqueação bruta de 830 toneladas e media (entre perpendiculares 48,91 metros de comprimento por 10,47 metros de boca por 5,35 metros de pontal. Funcionava com 21 tripulantes permanentes e com um efectivo de 59 pescadores/preparadores de pescado. Participou em campanhas de pesca nos mares da Terra Nova e adjacentes até 1972. No ano seguinte -a 24 de Fevereiro- quando a sua equipagem preparava a próxima faina, declarou-se a bordo um temoroso incêndio (na sequência de curto-circuito ocorrido na casa das máquinas), que tornou o «Rainha Santa» irrecuperável. E o armador sofreu, naturalmente, prejuízos avultados, que foram avaliados em milhares de contos de réis. Este navio-motor seria ainda adquirido por um emigrante de Bunheiro, que o mandou rebocar (através do chamado canal de Ovar) até ao sítio do Monte Branco (Torreira), onde o malogrado bacalhoeiro foi transformado em bar-restaurante. Mas também nessa sua inesperada condição o navio teve pouca sorte, pois foi alvo -em 1989- de novo incêndio (com origem, ao que parece, na cozinha), que o consumiu até à linha de água. E assim terminou, ingloriamente, a carreira de um bacalhoeiro que, apesar de consagrado a uma rainha santa e milagreira, não teve um fado feliz.

«PARIS»

Este vapor inglês -que pertenceu à frota da companhia Southern Railway, de Londres- foi construído em 1913 nos estaleiros da firma Denny W. & Brothers, de Dumbarton (G.B.). Destinado a assegurar o transporte de passageiros entre o sul de Inglaterra (Newhaven) e o porto normando de Dieppe, situado do outro lado do mar da Mancha, este pequeno navio -1 790 toneladas de arqueação bruta e 89,50 metros de comprimento por 10,90 metros de boca- podia navegar à velocidade de cruzeiro de 22 nós, o que fazia dele uma embarcação rápida do tráfego no canal. Mas logo no início da Grande Guerra o «Paris» abandonou a sua actividade civil, para (por imposição do almirantado britânico) ser convertido em lança-minas. Desmobilizado após a vitória das potências aliadas, o «Paris» voltou à sua actividade normal dos tempos de paz. Em 1929 e 1930, esteve imobilizado num estaleiro para se submeter a trabalhos de modernização, que compreenderam a substituição das suas velhas máquinas a carvão por motores a gasóleo. Também as suas super-estruturas foram remodeladas, facto que lhe deu uma silhueta mais esguia. Continuou na sua ligação a Dieppe, até, que, em Setembro de 1939, o Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha nazi, em consequência da invasão hitleriana da Polónia. De novo requisitado, o 'ferry' em apreço foi colocado, uma vez mais, sob a autoridade da 'Royal Navy'; que desta vez (em Janeiro e 1940) lhe atribuiu funções de navio-hospital. Durante a operação Dínamo -que consistiu na evacuação das tropas britânicas encurraladas pelos alemães na bolsa de Dunquerque- o «Paris» foi uma das centenas de embarcações que tentaram resgatar (com algum sucesso, refira-se) os 'Tommies' das praias francesas. Mas, no dia 2 de Junho de 1940, ao largo da praia de Zuydecoote, este navio inglês foi violentamente atacado por aviões da 'Luftwaffe', que mataram 20 membros da sua guarnição. Apesar dos esforços do rebocador «Sun XV» (que o acompanhava) para o manter à superfície, o «Paris» acabou mesmo por soçobrar nas águas do canal da Mancha; até porque, entretanto, havia sofrido novos ataques aéreos, que lhe causaram outras avarias e outras baixas.

«CORCOVADO»


O «Corcovado» foi um paquete que ostentou as cores da companhia alemã Hamburg-Amerika Linie (HAPAG). Foi construído, em 1907, nos estaleiros Krupp, de Kiel, por encomenda da citada casa armadora, que o colocou numa das suas linhas servindo a América do Sul. Daí que o nome escolhido para o navio em apreço se refira a um dos morros que dominam o Rio de Janeiro. Este navio apresentava uma arqueação bruta de 8 099 toneladas e media 136,60 metros de comprimento por 16,80 metros de boca. O seu sistema propulsivo, alimentado a carvão, proporcionava-lhe uma velocidade de cruzeiro de 13 nós. Pensado para o transporte de emigrantes, este paquete estava preparado para receber apenas 100 viajantes de 1ª classe e 1 160 passageiros de classe inferior. Manteve-se na linha com o Brasil e a Argentina até 1912, ano em que passou a navegar no trajecto Hamburgo-Nova Iorque. De onde foi transferido -no início de 1914- para as rotas Hamburgo-Filadélfia e Nova Iorque-portos do Mediterrâneo e do mar Negro. Em 1915, por causa da intensidade da guerra no Atlântico, este navio foi vendido à Turquia, que lhe deu o seu segundo nome : «Sueth» e que o usou em carreiras menos perigosas. No ano de 1919, com a derrota dos Impérios Centrais, aos quais os otomanos se haviam aliado, o navio foi entregue à França, que lhe devolveu o seu nome de «Corcovado». Mas, logo no ano seguinte, o navio foi cedido ao armador italiano Società Siculo-Americana, que, antes de o lançar nas suas linhas da América setentrional e do sul, lhe deu novo designativo : «Guglielmo Peirce». Ali se manteve o paquete até Dezembro de 1923, altura em que foi adquirido pela Consulich, de Trieste; que o conservou até 1927; ano em que, uma vez mais, o navio mudou de proprietário e foi integrado na frota do Lloyd Sabaudo, de Génova; que lhe deu o nome (mais um !) de «Maria Cristina». Em 1930, veio para Lisboa (em cuja capitania foi registado com o nome de «Mouzinho»), e passou a usar as cores da Companhia Colonial de Navegação. A partir de então, esteve, essencialmente, nas linhas de África, servindo preferencialmente as nossas antigas colónias de Angola e de Moçambique, para além de escalar a África do Sul. Mas, em 1941, ainda fez uma travessia transatlântica, que o levou da capital portuguesa ao porto de Nova Iorque. E, em 1954 -com quase meio século de serviços prestados a diversas marinhas mercantes- foi encaminhado para um estaleiro de Savona (Itália), que procedeu ao seu desmantelamento. Nota : a imagem que ilustra este texto é uma fotografia do navio, quando este já hasteava bandeira portuguesa e se chamava «Mouzinho».

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

«ST. OLAF»


Navio de bandeira norte-americana, lançado ao mar em 1942. Foi construído nos estaleiros de Baltimore (Maryland) pertencentes à firma Bethlehem-Fairchild Shipyards Inc., de onde saiu com o nome de «Jasmine». Era um 'liberty ship' amplamente modificado (em Boston, no ano de 1944) para poder cumprir a missão de navio-hospital. Tomando, desde logo, o nome de «St. Olaf» ('Santo Olavo'), um rei da Noruega (século XI) convertido ao cristianismo. Na sua nova forma e função, era um navio todo pintado de branco, ostentando visíveis cruzes vermelhas, para que não houvesse dúvidas quanto ao seu estatuto humanitário. Dispunha de condições para receber 586 pacientes (feridos e/ou doentes) e, para além da sua equipagem normal, transportava um corpo de médicos de várias especialidades e de enfermeiras. Que dispensavam os seus serviços nas diversas salas de operações cirúrgicas, nos serviços ambulatórios, na farmácia, nos laboratórios de análises e de radiografia. Tinha também serviço de dentista. Depois do armistício de 1945, este navio foi utilizado no repatriamento de tropas de diferentes frentes de combate. Prosseguiu a sua carreira  específica até 1963, ano em que foi dado como obsoleto e enviado para um estaleiro de Portland, onde foi desmantelado. Características físicas : foi-nos impossível topar com informação dessa natureza sobre este navio. Presumimos, no entanto, que (como alguns dos 5 outros 'Liberty' transformados em navios-hospital) o seu deslocamento fosse da ordem das 8 500 tonelada e que as suas dimensões fossem de 137 metros de comprimento por 17,73 metros de boca.

«TAORMINA»

Paquete italiano, construído -por encomenda da Italia Società di Navigazione a Vapore- nos estaleiros D. & W. Henderson, de Glásgua (Escócia), no ano de 1908. Apresentava 8 272 toneladas de arqueação bruta e as seguintes dimensões : 146,91 metros de longitude por 17,75 metros de boca. A sua motorização era composta por 2 máquinas a vapor acopladas a 2 hélices, cuja força lhe proporcionava uma velocidade máxima de 16 nós. Vocacionado, prioritariamente, para o transporte de emigrantes com destino à América do norte, o «Taormina» podia acolher a bordo 60 passageiros de classe privilegiada e 2 500 viajantes de 3ª classe. A sua viagem inaugural partiu de Génova a 3 de Setembro de 1908 com destino a Filadélfia e escalas intermediárias nos portos de Nápoles e de Nova Iorque. Em 1909, sofreu uma transformação, para que pudesse receber mais 120 passageiros de 1ª classe. E no ano seguinte, nova reformulação dos seus interiores permitiu o transporte de mais 60 pessoas na classe superior e de 120 em 2ª classe. Em meados de Dezembro de 1911, fez a sua derradeira travessia transatlântica com as cores do seu primeiro armador. No ano seguinte integrou a frota do Lloyd italiano, que o colocou na sua linha Génova-Nápoles-Nova Iorque, na qual permaneceu até ao rebentamento da 1ª Guerra Mundial. Em 1918 mudou novamente de mãos, passando, desde então, a pertencer à Navigazione Generale Italiana; que o manteve na linha de Nova Iorque, com partida de Génova e escala em Marselha. Em Agosto de 1923, este paquete deixou temporariamente o Atlântico para passar a navegar em exclusividade no mar Mediterrâneo. Mas, para dizer adeus à vida activa, o «Taormina», regressou à linha de Nova Iorque em 1927, sendo depois desclassificado. O navio foi enviado para a sucata em 1929, procedendo-se ao seu desmantelamento num estaleiro especializado de Savona.

«FAIAL»


As referências sobre esta nau portuguesa de inícios do século XVI são quase inexistentes. De modo que pouca coisa, sobre as suas características físicas (e outras, como, por exemplo, onde e quando foi construída), se pode adiantar. Presume-se, todavia, que não se terá distinguido das muitas outras naus realizadas nas tercenas portuguesas desse tempo e destinadas à carreira da Índia : um navio robusto, de casco bojudo, apto a transportar um importante número de marinheiros e homens de armas, para além, naturalmente, de ser capaz de embarcar carregamentos importantes de pimenta e de outras especiarias na viagem de retorno à Europa. Sabe-se, no entanto, que, em Janeiro de 1504, a nau «Faial», então colocada sob as ordens do prestigiado capitão Nicolau Coelho, naufragou (vinda da Índia e aquando de uma viagem de regresso a Portugal) nos baixios de São Lázaro, que, actualmente, se integram no arquipélago das Quirimbas, Moçambique. No soçobro do navio (que pertencia a uma frota superiormente comandada por Francisco de Albuquerque), pereceram parte da sua guarnição e parte dos seus passageiros. Entre as vítimas mortais, encontrava-se o próprio Nicolau Coelho; um insigne capitão que já comandara a caravela «Bérrio», na primeira expedição de Vasco da Gama ao Oriente, e que fora ao Brasil integrado na frota cabralina que divulgou o achamento das terras de Vera Cruz. Curiosidades : a nau que ilustra este texto nada tem a ver com o navio aqui em apreço; a não ser o facto de também se tratar de um navio quinhentista, similar à nau «Faial». Nicolau Coelho nasceu em Felgueiras por volta de 1460 e deveria ter uns 44/45 anos de idade, quando perdeu a vida ao serviço do Reino de Portugal e de D. Manuel I.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

«PRESIDENT WILSON»

Este paquete -que, inicialmente, içou o pavilhão da marinha mercante austro-húngara- foi construído em 1911 pelo Cantiere Navale Triestino (de Monfalcone) para a companhia Austro- American Line. Apresentava uma arqueação bruta de 12 567 toneladas e media 145,53 metros de comprimento por 18,35 metros de boca. Estava equipado com 2 máquinas a vapor (alimentadas a carvão) de origem britânica, acopladas a 2 hélices. que lhe facultavam uma velocidade máxima de 17 nós. Nessa sua primeira fase de vida, este navio podia receber a bprdo 125 passageiros de 1ª classe, 550 de segunda e 1 230 de 3ª classe. Fez a sua viagem inaugural em 1912, na rota Trieste-Buenos Aires. Ainda nesse ano (em Maio), passou a operar na linha Trieste-Nova Iorque, que fazia escalas em Patrasso, Palermo e Argel. Quando, em 1914, rebentou a Grande Guerra e a Áustria-Hungria tomou partido pela aliança dita dos Impérios Centrais, o «Kaiser Franz Josef» recolheu ao porto de registo -Trieste- onde permaneceu até ao fim do conflito. Após a derrota da Alemanha e aliados, em 1918, o navio foi entregue (como presa de guerra) à Itália, que lhe deu o novo nome de «President Wilson» e o integrou na frota da Consulich Line. A sua primeira viagem com bandeira tricolor (verde, branca e rubra) fez-se de de Génova a Nova Iorque (com escala em Marseilha) e com tropas norte-americanas de regresso à sua pátria. Viagens com o mesmo destino ocorreram até 1925, ano em que o navio entrou no estaleiro para um restauro completo; durante o qual os seus ultrapassados propulsores foram trocados por máquinas a gasóleo. Durante o ano de 1929 fez a sua derradeira viagem com as cores do seu armador, no percurso (de ida e volta) Trieste-Nápoles-Nova Iorque-Boston. Depois teve vida atribulada, já que operou (entre 1930-1936) no seio da frota do Lloyd Triestino, com o nome de «Gange» e foi colocado numa linha que servia o Extremo-Oriente, via canal de Suez. Em 1936 passou para as mãos da Società Adriatica di Navigazione di Trieste, passando a ligar este porto ao de Alexandria, no Egipto, já com o nome de «Marco Polo». Sequestrado pelas tropas alemãs estacionadas em Itália, depois do golpe de 1943, o navio foi afundado pelos nazis (a 12 de Maio do ano seguinte) diante do porto de La Spezia, de modo a dificultar as operações dos Aliados. Em 1949 foi reemergido e, no ano seguinte, enviado para a sucata.