quinta-feira, 27 de setembro de 2012
«SEA WITCH»
‘Clipper’ de bandeira norte-americana. Foi construído em 1846 pelos estaleiros Smith & Dimon, de Nova Iorque, por encomenda do armador Howland & Aspinwall, da mesma cidade. A ‘Bruxa do Mar’ (tradução do seu nome) deslocava 908 toneladas e media 56 metros de comprimento fora a fora por 10 metros de boca e notabilizava-se pelo seu casco esguio e pela altura excepcional dos seus 3 mastros. A sua figura de proa tinha a forma de um dragão com duas caudas (que se estendiam de um lado e de outro do casco), para lembrar que o navio fora concebido para o negócio com o Oriente. Com efeito, a rota privilegiada do «Sea Witch» era aquela que –via cabo Horn- o conduzia à China; de onde trazia chá, porcelanas preciosas e outras mercadorias de alto valor comercial. Velocíssimo, este ‘clipper’ esteve colocado sob as ordens de um dos mais famosos capitães de navios do seu tempo : Robert ‘Bully Bob’ Waterman; que, com ele, bateu três recordes de velocidade entre Hong Kong e aquela que é, hoje, chamada a Cidade dos Arranha-céus. Uma dessas viagens durou 74 dias de navegação. Proeza que só seria superada em Maio de 2003 pelo trimarã desportivo «Great American II». Com a descoberta de ouro na Califórnia e perante o fluxo de passageiros para San Francisco, o «Sea Witch» fez várias viagens para aquelas paragens e foi até o primeiro veleiro a reduzir o seu tempo de navegação entre Nova Iorque e a Porta Dourada para menos de 100 dias. Mas foi durante uma viagem de Amoy (a actual Xiamen) para os Estados Unidos, que –em 1856- o «Sea Witch» se perdeu. Ao encalhar num recife a 12 milhas náuticas a oeste do porto de Havana, com cerca de 500 emigrantes chineses a bordo. Curiosidade : a bonita imagem que ilustra o texto sobre este 'clipper' é a reprodução de uma tampa de caixa de maquetas produzida pela conhecida e reputada marca Lindberg.
«DOM LUIZ»
Vapor da carreira Barreiro-Lisboa. Pertenceu à frota dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste, companhia que, durante muitos anos, deteve o monopólio das ligações fluviais entre aquela importante localidade da outra banda (onde se reiniciavam as viagens ferroviárias para o Alentejo e para o Algarve) e a capital portuguesa. Este navio de rodas laterais (a não confundir com um seu predecessor do mesmo nome) foi comprado em 2ª mão na Grã-Bretanha no início do século XX. Construído na cidade de Dundee (Escócia) no ano de 1900, pelo estaleiro naval Gourley and Brothers, chamou-se, primitivamente, «Lady North». Era uma embarcação com 195 toneladas de arqueação bruta, medindo 51,20 metros de comprimento fora a fora por 6,85 metros de boca. Estava equipado com 1 máquina a vapor de tripla expansão e com 2 hélices. Tinha capacidade para transportar 600 passageiros e era, ao que parece, o navio preferido pela família real portuguesa nas suas frequentes travessias do Tejo; que ocorriam quando ia para as suas terras do Alentejo ou quando estava de regresso à capital do Reino, em proveniência de Vila Viçosa. Este navio está, pois, intimamente ligado à tragédia do regicídio, que ocorreu à entrada da rua do Arsenal –no dia 1º de Fevereiro de 1908- pouco depois do desembarque dos assassinados : D. Carlos I e D. Luís Filipe de Bragança, príncipe herdeiro. Curiosidades : o molhe do Terreiro do Paço não se situava, nessa época, no local onde hoje se ergue a estação do Sul e Sueste; mas do outro lado da praça, diante da ala virada para o Tejo do edifício onde funciona o Ministério da Marinha. Este texto está ilustrado com uma imagem do terreiro do Paço de inícios do século passado, que mostra a antiga estação dos ‘barcos do Barreiro’ e um navio similar ao «Dom Luiz»; navio cujo destino final desconhecemos, mas que sabemos ter passado a denominar-se «Estremadura» depois da implantação da república.
«KAISERIN AUGUSTE VICTORIA»
Transatlântico de bandeira alemã, que pertenceu aos efectivos da companhia Hamburg-Amerika Linien entre 1889 e 1904. Foi construído nos estaleiros navais da firma AG Vulcan, de Stettin com o nome de «Normannia», designativo rapidamente abandonado a favor do nome pelo qual se ilustrou nos anais da marinha mercante dessa época de transição de séculos. Era um paquete com 7 661 toneladas de arqueação bruta, medindo 144,80 metros de comprimento por 16,90 metros de boca. Funcionava com 2 máquinas de tripla expansão e com 2 hélices (foi o primeiro navio da carreira do Atlântico norte a dispor deste duplo sistema propulsivo), que lhe permitiam vogar à velocidade máxima de 18,5 nós. O «Kaiserin Auguste Victoria», assim chamado em honra da esposa do imperador Guilherme II, tinha uma tripulação de 245 membros e podia acolher 1 100 passageiros, 400 deles em 1ª classe; classe que, neste navio, tinha a qualidade de um hotel de luxo. Na sua primeira viagem, entre Hamburgo e Nova Iorque, este paquete bateu um recorde de velocidade. A sua fama de navio veloz e luxuoso granjearam-lhe os favores da clientela endinheirada do seu tempo, que sentiu um real prazer em viajar num transatlântico soberbamente decorado pelo famoso arquitecto de interiores Johann Poppe, um dos mais reputados do seu tempo. Durante o Inverno (quando os passageiros para a costa leste dos Estados Unidos escasseavam), este navio chegou a fazer cruzeiros ao Mediterrâneo e ao Próximo Oriente, sendo um dos primeiros navios europeus a recorrer a essa maneira de rentabilização. Em 1897, oito anos após a sua inauguração, o «Kaiserin» regressou ao estaleiro que o construíu para se submeter a grandes trabalhos; e, em 1904, foi vendido para a Rússia, que o armou e o transformou em cruzador auxiliar. Nessa sua nova condição de navio militarizado, o «Kuban» (seu novo nome) foi mandado para o Extremo Oriente; onde, todavia, não chegou a participar na guerra russo-japonesa. Regressou à Europa e foi desmantelado -no seu estaleiro de origem- no ano de 1907. Nota : não confundir este paquete com um navio de mesmo nome, mas de construção mais tardia.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
«D. ESTEPHANIA»
Este navio de 800 toneladas -que iniciou a sua carreira sob bandeira britânica e com o nome de «W. S. Lindsay»- foi construído nos estaleiros navais da empresa Coutts & Parkinson, de Willington Quay (Newcastle-upon-Tyne), em 1852. Era um veleiro (aparelhado em galera) com casco de aço, medindo 63 metros de comprimento por 8,80 metros de boca e capaz de transportar 280 passageiros, para além de carga geral. Depois de ter assegurado viagens para a Austrália, apareceu em 1858 na frota da União Mercantil (que o adquiriu ao seu antigo armador), já equipado com uma máquina a vapor e com 1 hélice, melhorias provavelmente realizadas no Reino Unido em previsão da sua venda a esta companhia portuguesa de navegação. Estreou-se, ainda nesse ano de 1858, na linha dos Açores e numa carreira regular com Angola, propondo aos seus utentes 60 beliches de 1ª e 220 de 3ª classe. A sua viagem inaugural para Angola teve partida de Lisboa no dia 1º de Outubro. O «D. Estephania» esteve na linha da África Ocidental Portuguesa até 23 de Dezembro de 1863, dia em que entrou na barra do Tejo pela última vez. Devido à extinção (em 1864) do seu armador, o navio foi desactivado, vendido para a sucata e desmantelado no ano de 1866. Nota : a ilustração anexada representa o «W. S. Lindsay» aquando do seu lançamento à água. Esta gravura foi publicada pelo «The Illustred London News», que noticiou o evento.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
«PELAYO»
Couraçado da armada espanhola construído, em 1887, pelos estaleiros franceses Forges et Chantiers de la Méditerranée (Toulon). Perdurou até 1924, data em que foi riscado dos efectivos da marinha. Foi desmantelado em Roterdão no decorrer do ano de 1926. O «Pelayo» era um navio derivado da classe ‘Amable Lagane’, da qual ele se diferenciava pelas suas proporções, especialmente estudadas para lhe facultarem a travessia do canal de Suez, recentemente inaugurado. Este couraçado pré-‘Dreadnought’ deslocava 9 950 toneladas e media 105 metros de comprimento, por 20,20 metros de manga, por 7,50 metros de calado. A sua cinta de casco estava protegida por uma blindagem que variava entre 298 e 450 mm, sendo, por óbvias razões, a zona (com a dos reparos : 298-399 mm) melhor couraçada do navio. O «Pelayo», unidade singular da marinha de guerra do país vizinho, estava armado com 2 canhões de 320 mm, 2 de 280 mm, 1 de 160 mm, 12 de 120 mm, 3 de 57 mm, 13 de 37 mm, 4 metralhadoras e (inicialmente) com 7 tubos lança-torpedos. Este último equipamento do navio foi reduzido para 3, aquando de uma passagem pelo estaleiro em 1910. O seu sistema de propulsão compreendia 4 máquinas verticais de dupla expansão, que libertavam uma potência de 6 860 cv e que lhe conferiam a velocidade máxima de 16,7 nós. Projectou-se para este navio, concebido em finais do século XIX, um aparelho vélico que nunca lhe foi adaptado. A sua autonomia era de 3 000 milhas náuticas. O «Pelayo» (que foi o primeiro navio da armada espanhola a dispor de uma estação de TSF) era tripulado por 520 homens. Durante a guerra de 1898, com os Estados Unidos, este navio pertenceu à 2ª Divisão Naval, que deveria operar no mar das Caraíbas. Acção que nunca se realizaria devido a pressões diplomáticas da Grã-Bretanha (a grande potência marítima do tempo), interessada em que o conflito não se estendesse a todo o oceano Atlântico. O «Pelayo» -alcunhado ‘el Solitario’ no seio da armada- esteve em Lisboa em 1901, onde se mostrou numa revista naval organizado pelo rei D. Carlos, e teve participação activa na guerra do Rif, bombardeando as costas marroquinas. Depois de, em 1912, ter sofrido danos importantes num incidente de navegação causado por negligência, este couraçado (já, então, suplantado tecnicamente) passou a exercer funções de navio de treino. Curiosidade : o nome (castelhano) deste navio é o de Pelágio, rei visigodo das Astúrias e fundador do movimento de resistência à ocupação árabe da península Ibérica e de reconquista do território ibérico.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
«ORAVIA»
Paquete britânico construído em 1897 por Harland & Wolff, no seu estaleiro de Belfast. Era um navio com 5 321 toneladas de arqueação bruta e com 128,30 metros de comprimento por 14,90 metros de boca, que pertenceu à frota da Pacific Steam Navigation Cº.. O seu sistema propulsivo compreendia 2 máquinas a vapor de tripla expansão desenvolvendo uma potência conjunta de 568 nhp e autorizando-lhe uma velocidade de cruzeiro de 15 nós. O «Oravia», que dispunha de uma equipagem de 106 membros e podia receber 610 passageiros, foi o último navio de uma série de três gémeos, sendo os primeiro (e por esta ordem) os paquetes «Orissa» e «Oropesa». Este navio realizou –entre 1900-1912- um serviço de correio com as ilhas Falkland (com extensões para os portos sul-americanos da costa oeste) Valparaíso e/ou Callao via estreito de Magalhães. Nessa sua rota, com partida de Liverpool, o «Oravia» escalava portos de França, de Espanha e de Portugal, onde carregava mercadorias e, sobretudo, famílias emigrantes. As viagens deste navio eram consideradas difíceis, nomeadamente a partir do momento em que ele franqueava o estreito de Magalhães, onde às dificuldades de navegação se misturavam condições climatéricas que não eram as ideais. Mas, o «Oravia» cumpriu, sem grandes problemas, a sua missão durante doze anos. Até que -em 12 de Novembro de 1912- foi despedaçar-se contra uma costa rochosa das ilhas Falkland, Billy Rocks. O infortunado transatlântico seria depois arrastado por ventos e marés para águas profundas, acabando por afundar-se a pouca distância do cabo Penbrocke. Todos os seus ocupantes puderam salvar-se do desastre. Curiosidade : os gémeos deste navio tiveram, também eles, destinos desastrosos. O «Oropesa», que foi transformado em cruzador auxiliar pela armada francesa, foi afundado em 1917 por um submarino germânico; e o «Orisa», que, durante os anos da Grande Guerra, permanecera ao serviço da Pacific Steam Navigation Cº, sofreu idêntica sorte em 1918.
«BRETAGNE»
Veleiro francês (uma barca de 3 mastros) construído em França -pelos estaleiros de Chantenay- em 1901. A sua primeira casa armadora foi a empresa Raoul Guillon & Compagnie, que encomendou o «Bretagne» para substituir um dos seus navios afundado na passagem do Horn pour um iceberg. Mas este veleiro não ficou nessa empresa por muito tempo, visto ter sido adquirido, em 1903, por Louis Levesque, um outro armador de Nantes. O «Bretagne» era um navio de 2 300 toneladas, bem proporcionado, do qual desconhecemos, no entanto, as dimensões. Destinado ao transporte de carga geral, este veleiro esteve, essencialmente, nas carreiras Europa-Austrália/Nova Zelândia e Europa-costa oeste da América do sul, transportando carvão, cereais, nitratos, ardósia, minério, etc. Em 1914, o navio navegava em águas australianas quando a sua carga se desequilibrou. O navio, que esteve em risco de se perder, adernou de 33º, só saindo dessa posição crítica após vários dias de trabalho exaustivo nos porões. Em 1917, depois de mais uma das suas viagens aos mares austrais, o «Bretagne» foi mobilizado pela marinha militar e armado. Foi beneficiado, nessa altura, com um aparelho de TSF, com 2 canhões de 90 mm e recebeu a bordo um efectivo de 6 artilheiros. A sua carreira bélica foi nula, passando o navio através dos perigos inerentes à situação conflituosa; que não poupou muitos dos seus congéneres. Este magnífico veleiro foi vendido, em 1922, ao armador alemão H.H. Schmidt, de Hamburgo, que lhe deu o nome de «Wilhelmine e o utilizou até 1926, ano do seu desmantelamento.
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