sexta-feira, 21 de setembro de 2012

«ULYSSES»


Fragata portuguesa dos séculos XVIII e XIX. Foi construída no arsenal da marinha, em Lisboa, e lançada à água no dia 15 de Dezembro de 1792. Estava armada com 44 bocas de fogo, quando, em 1793, foi incorporada -a pedido dos nossos aliados britânicos- numa esquadra de reforço das suas forças navais no Mediterrâneo ocidental. Depois, passou para águas do oceano Atlântico, onde, até 1804, assegurou a protecção dos numerosos comboios navais que transitavam entre as costas do Brasil e as da Europa. Depois de se ter exposto a grandes fabricos (também nesse ano de 1804), a armada real portuguesa decidiu mudar-lhe o nome para «Urânia». Em 1807, este navio integrou-se na grande esquadra luso-britânica que conduziu ao Brasil o rei D. João VI e a sua numerosa corte. Foi dada como perdida num naufrágio ocorrido ao largo das ilhas de Cabo Verde no dia 5 de Fevereiro de 1809. Um modelo -de grandes dimensões- deste navio ocupa um lugar de destaque no Museu de Marinha (de Lisboa). Nota : não confundir esta fragata com outros navios do mesmo tipo e do mesmo nome que, em anos diferentes do século XVIII (e seguinte) , serviram na Armada Portuguesa. O desenho que ilustra este texto não representa a «Ulysses», mas, genericamente, uma fragata do tempo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

«VROUW MARIA»



O nome neerlandês deste navio mercante (construído em Amesterdão em data indeterminada da segunda metade do século XVIII) significa, na nossa língua ‘Senhora Maria’. Trata-se de um brigue (ou de uma escuna, como o pretendem certas fontes ?) de modesta tonelagem, que inscreveu o seu nome na História marítima graças à sua derradeira e catastrófica viagem. Viagem que começou (na sua cidade de origem) no dia 5 de Setembro de 1771 e que deveria terminar nas águas do rio Neva, em São Petersburgo, então capital da Rússia Imperial. Cidade para onde o navio (sob comando de Raymund Lourens) seguia com um carregamento de produtos de consumo corrente (açúcar, café, tecidos, etc), mas constituído, também, por obras de arte, todas adquiridas na Holanda pelos agentes da Grande Catarina. Depois de uma viagem inicial sem história, o «Vrouw Maria» foi assaltado, no mar Báltico, por uma medonha tempestade e foi encalhar (a 3 de Outubro) na costa rochosa de uma das ilhas Aland, que são, hoje, território da Finlândia. A tripulação do navio holandês esforçou-se para salvar o precioso carregamento, mas nada mais conseguiu -antes do seu afundamento definitivo- do que sacar do seu bojo meia dúzia de objectos. O naufrágio do «Vrouw Maria» caiu no esquecimento, até que, em 1979, voltou a ser notícia, depois da publicação de um livro intitulado «Sjunkna Skepp» publicado por um investigador no Arquivo Nacional da Finlândia, o Dr Ahlström. Os restos do navio acabaram por ser descobertos pelos mergulhadores de uma associação finlandesa criada para o efeito; mas a polémica está instalada entre estes e os seus vizinhos russos, que desejam, muito legitimamente, recuperar a totalidade (ou parte) dos artefactos adquiridos com os dinheiros da czarina. O futuro dirá se se fará uma tentativa de recuperação dos mesmos e como se estabelecerá a sua partilha. Nota : infelizmente não se conhecem as características físicas do navio em apreço. Dele pouco ou nada mais e sabe do que aqui fica dito.

«LADY MARY WOOD»



Navio mercante do século XIX, que fez parte da frota da companhia de navegação britânica P. & O.. Embarcação mista (vela/vapor), o «Lady Mary Wood» foi construído em Liverpool -no ano de 1842- pelo estaleiro naval da firma Thomas Wilson & Cº.. Com 2 mastros e uma altaneira chaminé (implantada a meia nau) este navio estava equipado com uma máquina de 250 ihp de potência, acoplada a duas rodas laterais de palhetas. Este navio apresentava 650 toneladas de arqueação bruta e media 49 metros de comprimento por 7,80 metros de boca. O seu calado atingia uma cota ligeiramente superior a 5 metros. Concebido para transportar 110 passageiros e 200 toneladas de carga geral, o «Lady Mary Wood» tinha uma tripulação variável, mas nunca inferior a oito dezenas de homens. Fez a sua viagem inaugural para os portos da península Ibérica em 1842, mas, dois anos mais tarde foi afectado às linhas que o seu armador estendeu para o Oriente, passando a assegurar carreiras para a Índia, Singapura e China e entre portos desta região do mundo. Em 1848 teve papel preponderante numa acção do exército colonial britânico, ao transportar, rapidamente, de Trincomalee (Ceilão) para Madrasta, ½ batalhão de soldados europeus e 1 regimento inteiro de cipaios; facto que permitiu extinguir uma das muitas rebeliões fomentadas na chamada ‘Jóia da Coroa’ contra a soberania e os interesses da rainha Vitória. A carreira do «Lady Mary Wood» sob pavilhão da Grã-Bretanha prosseguiu nos mares da Ásia até Dezembro de 1858, quando foi vendido a uma empresa de nome CE Wermuth, CS van Heeckeren & Co, sedeada nas Índias Orientais Neerlandesas; região que começou a ligar comercialmente a diferentes portos da China. O seu novo proprietário mudou-lhe o designativo para «Oenarang». Este navio teve um último armador chamado WC de Vries -com sede em Batávia- que o adquiriu em 1862. O seu desmantelamento teve lugar num estaleiro da futura Jacarta no ano de 1867. Curiosidades : o famoso escritor William Makepeace Thackeray -autor das inolvidáveis obras «Feira das Vaidades» e «As Memórias de Barry Lyndon»- viajou (em 1844) neste navio, entre a Inglaterra e Gibraltar. O nome dado a esta unidade da Peninsular & Oriental Steam Navigation Company foi uma homenagem prestada à sua madrinha, que era a esposa de Charles Wood, secretário do Almirantado e futuro visconde de Halifax.

«BENFOLD»



Moderno ‘destroyer ‘ lança-mísseis da armada dos Estados Unidos da América. Este navio da classe ‘Arleigh Burke’, que tem a sua base em San Diego (no sul do estado da Califórnia), foi lançado à água no dia 9 de Novembro de 1994 e integrou o serviço activo em Março de 1996. Foi construído no estaleiro Ingalls, de Pescagoula (Mississippi), e apresenta as seguintes características físicas : 6 900 toneladas de deslocamento; 154 metros de comprimento; 20 metros de boca; 9,4 metros de calado. Com propulsão assegurada por 4 turbinas a gás (desenvolvendo uma potência de 100 000 cv) e por 2 hélices, o «Benfold» pode navegar à velocidade máxima de 30 nós e dispor de um raio de acção (com andamento limitado a 20 nós) de 4 400 milhas náuticas. Moderníssimo em matéria de instrumentos (nomeadamente no que respeita os sistemas de processamento, a guerra electrónica, etc), este navio está armado com artilharia de tipo clássico, com lança-torpedos e com sofisticados sistemas de lançamento de mísseis, de entre os quais se destacam os engenhos ‘Standard’ e ‘Tomahawk’. O navio possui uma área de aterragem/descolagem para helicópteros. O «Benfold», cujo lema é ‘Avante, com Valor’ tem uma guarnição de mais de 300 homens, incluindo 33 oficiais. Considerado o navio mais bem administrado da frota militar dos E.U.A. (no aspecto operacional e no que respeita as técnicas de gestão e de manutenção), o poderoso «Benfold» foi tema de um livro intitulado «É o Teu Navio» (já editado em Portugal), da autoria do seu comandante Michael Abrashoff.

«SAN TELMO»



O «San Telmo» foi um navio de linha espanhol de 74 canhões. Pertenceu à classe ‘San Ildefonso’, que comportou 6 unidades, que foram, para além dos dois navios já referidos, o «Montañés», o «San Francisco de Paula», o «Monarca» e o «Europa»; que eram, todos eles, navios rápidos, estáveis e manobráveis. Construído pelos Reales Astilleros de Esteiro (no Ferrol), em 1788, segundo os planos do engenheiro naval Romero de Landa, o «San Telmo» deslocava 2 750 toneladas e media 52 metros de comprimento, por 14,50 metros de boca, por 7 metros de pontal. A sua guarnição era de 640 homens, marinheiros e fuzileiros. Muito veleiro, atribuiu-se-lhe (em condições ideais) uma velocidade máxima da ordem dos 14 nós. O «San Telmo» esteve, sucessivamente, baseado no Ferrol (quando integrava a Esquadra do Oceano) e em Cartagena (depois de ter sido transferido para a Esquadra do Mediterrâneo); onde, aliás, ficou bloqueado aquando da batalha naval de Trafalgar. Em 1819, recebeu ordens para aparelhar para Callao (no actual Peru), para participar na guerra contra os insurrectos que ali contestavam a autoridade do rei de Espanha. Dessa expedição (superiormente comandada pelo brigadeiro Rosendo Porlier y Asteguieta) faziam parte quatro navios, que embarcaram 1 400 marinheiros e homens de armas. Mas, na passagem do cabo Horn, a esquadra espanhola -que fora pomposamente baptizada Divisão Naval do Sul- viu-se a braços com o rigor do Inverno austral (mar revolto e rajadas de vento forte), que provocou a dispersão dos navios. O «San Telmo» foi visto pela última vez (do mercante armado «Primorosa Mariana») no dia 2 de Setembro, debatendo-se na tempestade; numa posição anotada de 62º S de latitude. Depois dessa data ninguém mais lhe pôs a vista em cima. Presume-se (na base de estudos feitos sobre os restos encontrados de uma embarcação que bem poderia ter sido o vaso de guerra espanhol desgarrado) que o navio terá naufragado na costa norte da ilha Livingstone. E que os sobreviventes do «San Telmo» tenham vivido nessa ilha da Antárctida algum tempo, antes de sucumbirem ao frio glacial e à falta de mantimentos. O que a ser verdade, faz deles os primeiros homens a estabelecer uma base (por muito efémera que ela tenha sido) em terras do 6º continente.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

«KANIMBLA»



Paquete britânico construído em 1935 nos estaleiros da empresa Harland & Wolff, de Belfast (na Irlanda doNorte). Deslocava 11 000 toneladas e media 143 metros de comprimento por 20,20 metros de boca. A sua propulsão, assegurada por máquinas diesel e 2 hélices, desenvolvia 10 000 cv de potência, o que permitia ao «Kanimbla» navegar à velocidade de cruzeiro de 19 nós. Este navio pertenceu à frota da companhia McIlwraith & McEachern Ltd, que o colocou em águas australianas, assegurando carreiras entre os portos de Freemantle (Western Australia) e de Cairns (Queensland). Quando rebentou a Segunda Guerra Mundial, este navio foi requisitado pelas autoridades navais britânicas, que o transformaram em cruzador auxiliar. O «Kanimbla» recebeu, para o efeito, uma dezena de peças de artilharia de vário calibre, das quais duas eram antiaéreas. O navio começou, então, a patrulhar (com o indicativo de amura F23) as costas da Ásia do sudoeste. Hasteava, por essa altura, a bandeira de guerra da ‘Royal Navy’, mas a sua guarnição era maioritariamente composta por australianos. Nessa sua condição, o navio participou na tomada do porto persa de Bandar Shahpur e esteve envolvido noutras operações importantes do conflito. Este antigo paquete sofreu nova remodelação em Abril de 1943, quando foi transformado em transporte de tropas, com a designação oficial de LCI (Transporte de Desembarque de Infantaria). Nessa sua nova configuração, o navio podia receber a bordo cerca de 1 400 tropas e 10 lanchas de desembarque. Foi a partir daí que passou a usar pavilhão da marinha de guerra australiana, a ostentar novo número de amura (C78) e a operar na vasta e perigosa frente do Pacífico. Rearmado, recebeu um reforço de peças antiaéreas. A sua presença passou a ser assinalada nos mares e costas da Nova Guiné, do golfo de Leyte, de Bornéu, etc. A sua meritória acção foi reconhecida pelas autoridades navais aliadas, que distinguiram este navio com 5 valiosas condecorações. Depois da derrota do Japão e da sua rendição incondicional, o «Kanimbla» (cujo nome evoca um vale das Montanhas Azuis, na Nova Gales do Sul) foi desmilitarizado e devolvido aos seus armadores civis. Que, em 1950, o venderam à Pacific Transport Company, empresa que lhe deu o novo nome de «Oriental Queen». O ex-«Kanimbla» passou, desde então, a operar como navio de cruzeiros, visitando sobretudo o Japão e várias ilhas do oceano Pacífico. Foi vendido para o ferro velho em início da década de 70 e desmantelado -em 1974- num estaleiro de Taiwan.

«LA CARDINALE»



Navio medievo português, que foi o protagonista -no ano de 1225- de um incidente diplomático entre o nosso país (onde, então, reinava D. Sancho II) e a Inglaterra. Esta nave (cujas características físicas desconhecemos, assim como ignoramos as razões do seu nome, aparentemente francês) navegava para a Flandres -uma das primeiras regiões da Europa do norte com as quais Portugal estreitou relações comerciais- com uma tripulação de 30 homens e mercadorias diversas (azeite, sebo, etc); para além de transportar 6 jovens portugueses, que iam estudar na já prestigiosa universidade de Paris. Em lugar indeterminado do golfo de Gasconha (também conhecido por golfo de Biscaia), o navio luso foi assaltado por um corsário inglês, que o apresou e o levou para Porchester, localidade costeira do sul da maior das ilhas britânicas, situada a curta distância de Portsmouth. Os ocupantes do «La Cardinale» foram metidos numa masmorra da terreola e o recheio do navio português foi pilhado e dividido entre os assaltantes e seus armadores; armadores que utilizaram o seu quinhão do saque para abastecerem os seus próprios navios. O «La Cardinale» passou, desde logo, a usar a bandeira dos seus captores e uma equipagem inglesa. As autoridades portuguesas e, sobretudo, os legítimos proprietários do navio e da carga pirateados apresentaram várias queixas ao rei de Inglaterra pedindo a libertação dos cativos, a devolução do navio e as indemnizações devidas pelo roubo da sua carga. Parece que, por intervenção real junto dos saqueadores, estes consentiram libertar os presos e atribuir-lhes algumas compensações monetárias : ½ marco a cada um dos marinheiros lusos e 40 marcos para pagar as mesadas dos 6 estudantes. Quanto ao navio «La Cardinale», parece que esse nunca mais foi devolvido à procedência. Nota : este incidente está relatado no excelente livro «Grandes Batalhas Navais Portuguesas», da autoria de José António Rodrigues Pereira, oficial da armada, universitário e director do nosso precioso Museu de Marinha.