domingo, 26 de setembro de 2010

«MADRE DE DEUS»


Navio português construído em 1589 na Ribeira das Naus (Lisboa), para a carreira das Índias. Era uma nau de 1 600 toneladas de deslocamento, que media 50 metros de comprimento por 14,50 metros de boca, dimensões extraordinárias para a época. A tripulação desta nau rondava os 700 homens e o navio estava armado com 32 canhões de bronze. Tinha sete cobertas (que disponilizavam espaço para carregar 900 toneladas de mercadoria) e os seus três mastros aparelhavam pano redondo, à excepção do de mezena. O mastro real culminava a 36,60 metros. A quantidade e o alto valor das mercadorias transportadas pelas naus da carreira das Índias despertaram a cobiça de corsários e piratas de todas as origens, mas sobretudo dos ingleses, que lhes faziam esperas em zonas estratégicas do oceano Atlântico (os Açores eram uma delas) e as atacavam. Esses assaltos faziam-se, geralmente, às naus isoladas e com vários navios ao mesmo tempo, para que ficasse assegurada a vitória nesse combate desigual e bastante proveitoso. Foi nessas circunstâncias que a grande nau «Madre de Deus foi investida -em data indeterminada do mês de Agosto de 1592- por uma esquadra inglesa chefiada por ‘sir’ John Burrough. A nau portuguesa regressava da Índia e o assalto ocorreu ao largo da ilha das Flores, durando seis longas horas. Quando a «Madre de Deus» foi tomada, as cobertas estavam encharcadas do sangue de muitos dos marinheiros lusos mortos pela metralha dos nossos ‘aliados’ de 1373. Burrough poupou a vida ao capitão português (Fernão Mendonça Furtado) e aos restantes feridos da «Madre de Deus», desembarcando-os nos Açores. Contrariamente àquilo que era usual nesse tempo (em que se pilhava a carga e se incendiava, depois, o navio saqueado), os corsários ingleses rebocaram a nau portuguesa até Dartmouth, onde esta causou estranheza, tanto pelas suas dimensões (superiores à de todos os navios já ali vistos e até à de qualquer casa desse porto), como pelo rico carregamento que transportava : pedras preciosas, jóias, moedas de ouro e prata, âmbar, tecidos finos, tapeçarias, porcelanas chinesas, marfim e 500 toneladas de especiarias, predominantemente pimenta. Além de um preciosíssimo documento impresso em Macau no ano de 1590, que continha informação confidencial sobre o comércio português no Oriente. Segundo o relato de um certo Richard Hakluyt, o dito foi encontrado fechado num cofre de cedro «enrolado cem vezes num tecido fino de Calecut», tratado como o mais precioso dos tesouros. Parece que o saque da «Madre de Deus» representava, em termos de valor, metade do tesouro real da Inglaterra isabelina. Mas uma parte importante do tesouro (cerca de 3/4) foi roubada pelos próprios marujos de ‘sir’ John Burrough, pelos funcionários reais e por toda uma chusma de ladrões e aventureiros que, mal souberam da notícia do apresamento da gigantesca nau e da sua chegada a Dartmouth, acorreram na perspectiva de tirar, também eles, proveito da inesperada situação. Curiosamente, data deste episódio, o facto dos funcionários portuários ingleses serem obrigados a usar fardas sem bolsos. A pilhagem da «Madre de Deus» despertou nos ingleses a cobiça pelas coisas da Índia; onde (com a oferta de Bombaim, integrada no dote de Catarina de Bragança) eles acabariam por construir um imenso e rendoso império, que só se desfez em meados do século XX, com a independência dos territórios que formam, hoje, a Índia, o Paquistão e o Bengladesh.

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