Paradoxalmente, este navio (francês) que se entregou, enquanto navegou, a um dos tráficos mais infâmes da História da Humanidade -o contrabando de escravos- usou o nome de um santuário mariano de Marselha : o de Notre-Dame de la Garde, a que os devotos locais chamam, muito simplesmente, 'la Bonne Mère' (a Boa Mãe). Construído num estaleiro de Nantes no ano de 1802, o «Bonne-Mère» era um pequeno navio de 206 toneladas e com 26,21 metros de comprimento. O casco deste veleiro de 3 mastros estava revestido com chapas de cobre e a sua coberta estava armada com 4 peças de artilharia. Tinha uma tripulação de 37 hommens. O seu armador foi Mathurin Trottier, que morou na ilha Feydeau (hoje integrada no centro histórico da cidade de Nantes), antes de se instalar nas Antilhas; onde se tornou senhor de engenho e traficante de escravos. Segundo Éric Saugera, que o retratou num precioso livro intitulado «La Bonne-Mère, Navire Négrier Nantais (1802-1815)», Trottier era «bom filho, marido extremoso e pai exemplar; católico praticante, com a descendência baptizada, maçónico (membro de uma loja conhecida pela sua acção caritativa), generoso com os mais necessitados, trabalhador e negociante probo». Mas traficava escravos... Na primeira das várias viagens que fez a África, o «Bonne-Mère» adquiriu 303 homens e mulheres nas costas da Guiné, que levou para a Martinica, onde os cativos foram vendidos por 450 000 libras. Negócio que proporcionou a Mathurin Trottier uma importante margem beneficiária. Depois de ter sido colocado, algum tempo, na linha Nantes-Londres e de ter navegado com o nome de «Sophie», este veleiro retomou o seu primitivo nome e a sua ignóbil actividade de origem. Desta vez por conta de duas famílias flamengas (também elas instaladas em Nantes) às quais foi vendido. O «Bonne-Mère», que prosseguiu o tráfico negreiro, foi apreendido em 1815 -no porto de Pointe-à-Pitre, Guadalupe- pela guarnição de um vaso de guerra britânico. Não por dedicar-se ao vergonhoso comércio de seres humanos, mas porque se encontrava nas águas de uma ilha que apoiara Napoleão Bonaparte. Depois, nunca mais se soube dele, presumindo-se que tenha sido destruído pelos seus captores. Nota final : as responsabilidades do ignominioso negócio de escravos não podem ser imputadas, exclusivamente, aos traficantes europeus e americanos. Em suma, aos brancos. Houve, com efeito, também muitos régulos africanos que fizeram fortunas colossais à custa da venda de seres humanos -seus irmãos de raça- que eles mandavam capturar no interior das terras por grupos armados e treinados para esse fim. Foi, por exemplo, o caso de Opubo Fubara Pepple, um reizeco das costas da Guiné, que tratou sobretudo com os franceses, nomeadamente com os capitães do «Bonne-Mère».
domingo, 28 de abril de 2013
«BONNE-MÈRE»
Paradoxalmente, este navio (francês) que se entregou, enquanto navegou, a um dos tráficos mais infâmes da História da Humanidade -o contrabando de escravos- usou o nome de um santuário mariano de Marselha : o de Notre-Dame de la Garde, a que os devotos locais chamam, muito simplesmente, 'la Bonne Mère' (a Boa Mãe). Construído num estaleiro de Nantes no ano de 1802, o «Bonne-Mère» era um pequeno navio de 206 toneladas e com 26,21 metros de comprimento. O casco deste veleiro de 3 mastros estava revestido com chapas de cobre e a sua coberta estava armada com 4 peças de artilharia. Tinha uma tripulação de 37 hommens. O seu armador foi Mathurin Trottier, que morou na ilha Feydeau (hoje integrada no centro histórico da cidade de Nantes), antes de se instalar nas Antilhas; onde se tornou senhor de engenho e traficante de escravos. Segundo Éric Saugera, que o retratou num precioso livro intitulado «La Bonne-Mère, Navire Négrier Nantais (1802-1815)», Trottier era «bom filho, marido extremoso e pai exemplar; católico praticante, com a descendência baptizada, maçónico (membro de uma loja conhecida pela sua acção caritativa), generoso com os mais necessitados, trabalhador e negociante probo». Mas traficava escravos... Na primeira das várias viagens que fez a África, o «Bonne-Mère» adquiriu 303 homens e mulheres nas costas da Guiné, que levou para a Martinica, onde os cativos foram vendidos por 450 000 libras. Negócio que proporcionou a Mathurin Trottier uma importante margem beneficiária. Depois de ter sido colocado, algum tempo, na linha Nantes-Londres e de ter navegado com o nome de «Sophie», este veleiro retomou o seu primitivo nome e a sua ignóbil actividade de origem. Desta vez por conta de duas famílias flamengas (também elas instaladas em Nantes) às quais foi vendido. O «Bonne-Mère», que prosseguiu o tráfico negreiro, foi apreendido em 1815 -no porto de Pointe-à-Pitre, Guadalupe- pela guarnição de um vaso de guerra britânico. Não por dedicar-se ao vergonhoso comércio de seres humanos, mas porque se encontrava nas águas de uma ilha que apoiara Napoleão Bonaparte. Depois, nunca mais se soube dele, presumindo-se que tenha sido destruído pelos seus captores. Nota final : as responsabilidades do ignominioso negócio de escravos não podem ser imputadas, exclusivamente, aos traficantes europeus e americanos. Em suma, aos brancos. Houve, com efeito, também muitos régulos africanos que fizeram fortunas colossais à custa da venda de seres humanos -seus irmãos de raça- que eles mandavam capturar no interior das terras por grupos armados e treinados para esse fim. Foi, por exemplo, o caso de Opubo Fubara Pepple, um reizeco das costas da Guiné, que tratou sobretudo com os franceses, nomeadamente com os capitães do «Bonne-Mère».
sábado, 27 de abril de 2013
«LIVERPOOL»
////////// Belíssimo veleiro de 4 mastros construído, em 1889, nos estaleiros escoceses da firma Russell & Cº (de Port Glagow). O comanditário e armador deste navio foi a companhia R. W. Leyland & Co, com sede em Liverpool. Destinado ao comércio com terras longínquas (nomeadamente do Oriente e das Américas), este navio -um cargueiro polivalente- era de uma elegância rara, como o atesta a tela que aqui o ilustra e que é da autoria do distinto artista chinês Lai Fong. O «Liverpool» tinha casco em aço, apresentava uma arqueação bruta de 3 400 toneladas e media 101,54 metros de comprimento por 14,54 metros de boca. O seu pontal era de 8 metros. Este navio de bandeira britânica, registado na capitania do porto que lhe deu o nome, teve uma carreira praticamente sem história. Até que, no decorrer do ano de 1902, encalhou em Alderney (ilha do canal da Mancha), quando seguia viagem de Antuérpia para a cidade de San Francisco (Califórnia). Parece não ter havido vítimas entre a tripulação; mas o «Liverpool» foi dado pelo seu armador como definitivamente perdido.
«NAIAD»
Projectado como navio de transporte fluvial, o futuro USS «Naiad» foi construído, em 1863, num estaleiro de Freedom, na Pensilvânia. Antes de ter tempo de encetar uma carreira civil, esta embarcação foi comprada e modificada pelo ministério da guerra dos unionistas, para reforçar as suas forças navais a operar no Mississippi e afluentes. A primeira operação bélica importante do «Naiad» ocorreu a 15 e 16 de Junho de 1864, quando, ao lado do USS «General Bragg» e do USS «Winnebago», esta canhoneira se mediu com a artilharia sulista concentrada nas margens do grande rio, perto de Ratliff (Luisiana) e conseguiu colocá-la fora de combate. Patrulhando sistematicamente o sul do Mississippi, sozinho ou na companhia de outras unidades similares, o vapor de guerra «Naiad» ilustrou-se em várias outras operações de limpeza (nomeadamente em Rowe, Luisiana), que mantiveram abertas as vias de comunicação com o Oeste do país. Isso, sem proveito para as forças confederadas. O vapor (de roda traseira) «Naiad» deslocava 186 toneladas em plena carga e apresentava as seguintes dimensões : 47,80 metros de comprimento; 9,25 metros de boca; 1,80 metro de calado. O seu sistema de propulsão permitia-lhe vogar à velocidade máxima de 9 km por hora. Protegido, nos pontos sensíveis, por uma couraça, este navio esteve armado com 8 canhões de 24 libras. Finda a guerra de Secessão, o «Naiad» foi vendido (no dia 17 de Agosto de 1865) a particulares. Mas esta embarcação -entretanto baptizada com o novo nome de «Princess»- teve vida civil efémera. A 1 de Junho de 1868 afundou-se (na sequência do choque com um objecto não identificado) perto de Napoleon (Missouri) e, apesar de ter sido recuperada, acabou por ser vendida a um sucateiro; que, ainda nesse ano, mandou proceder ao seu desmantelamento num estaleiro da cidade de Cairo (Illinois).
sexta-feira, 26 de abril de 2013
«CARDENAL CISNEROS»
////////// Cruzador-couraçado da armada espanhola. Pertencente a uma classe de navios que recebeu o seu nome, o «Cardenal Cisneros» foi construído no arsenal do Ferrol (Galiza); que o lançou ao mar no dia 19 de Março de 1897. A sua integração nas listas da armada só ocorreu, porém, seis anos mais tarde, em 1903. Com um deslocamento de 7 000 toneladas, este navio media 106 metros de comprimento por 18,50 metros de boca e o seu calado era de 6,60 metros. A blindagem do seu casco (a nível da cintura) variava entre 150 e 300 mm e tinha uma espessura de 40 a 250 mm nas outras zonas protegidas. O «Cardenal Cisneros» estava equipado com 2 máquinas a vapor de tripla expansão e com 2 hélices, sistema propulsivo que lhe garantia 20 nós de velocidade máxima e uma autonomia de 6 500 milhas náuticas (com andamento reduzido). Do seu armamento principal constavam 2 canhões de 240 mm, 8 de 140 mm, 8 de 57 mm e 10 outros e 37 mm. Para além dos seus 480 homens de equipagem, este navio podia receber mais 59 elementos da infantaria de marinha. Em 1903, foi um dos navios da armada espanhola que escoltou o rei Afonso XIII na sua visita a várias cidades portuárias da Península Ibérica, entre as quais se contou a capital portuguesa. Cidade onde D. Carlos I recebeu o soberano vizinho e a sua comitiva com grande pompa e circunstância. Este navio cumpriu, no ano seguinte, missão similar ao escoltar o iate real «Giralda», em digressão pelo Mediterrâneo. Em 1905 -último ano da sua curta vida- o «Cardenal Cisneros» esteve, igualmente, envolvido nas cerimónias de recepção aos duques de Connaught, que chegaram a Cádiz no cruzador HMS «Essex» e fez parte de uma esquadra de instrução, que visitou as Canárias. Mas ainda nesse ano voltou à sua actividade diplomática, ao escoltar o navio do imperador Ghilherme II da Alemanha, durante a visita que este soberano fez ao porto de Mahon, na ilha Minorca (Baleares). Depois, o «Cisneros» alternou missões de formação com visitas de cortesia a portos estrangeiros, nomeadamente a Cherburgo (França) e Portsmouth (Grã-Bretanha), onde, uma vez mais, acompanhou o rei Afonso XIII. A 28 de Outubro desse ano, durante um exercício naval nas rias galegas, este navio de guerra espanhol chocou acidentalmente com um escolho (não cartografado) nos baixios de Meixidos, que lhe rasgou 50 metros de casco. A inundação da casa das máquinas foi inevitável e o «Cardenal Cisneros» não pôde ser salvo. Mas o naufrágio não causou vítimas. Julgado por um Conselho de Guerra, o seu comandante acabou por ser condenado a 1 ano de perda das suas funções de oficial da armada. Curiosamente, essa pena não lhe foi aplicada pelo facto de ter perdido o navio. Mas, isso sim, por ter deixado desgarrar... o livro de bordo. Em 2006, dois mergulhadores desportivos lograram encontrar os restos deste singular navio. Que recebeu o seu nome em homenagem ao cardeal Francisco Jiménez de Cisneros, arcebispo de Toledo e primaz de Espanha, terceiro Inquisidor Geral e (depois da morte de Fernando de Aragão, esposo de Isabel, a Católica) regente de Castela.«S1000»
//////////////// O «S1000» é o protótipo (virtual) de um submarino de propulsão clássica (diesel-eléctrica) colocado no mercado de armas pelo consórcio russo-italiano Rubin/Fincantieri. Segundo informações publicadas na imprensa especializada, Rubin encarregou-se da concepção geral do submersível e a conhecida firma transalpina vai proceder à construção do dito. O «S1000» é ('crise oblige') destinado às armadas de países com poucas disponibilidades financeiras, particularmente das regiões Ásia/América latina. Com um deslocamento de 1 170 toneladas (em imersão), o «S1000» medirá 56,20 metros de longitude por 5,50 metros de boca. Os seus propulsores deverão desenvolver uma potência global de 3,93 MW; força que lhe permitirá atingir a velocidade máxima de 14 nós em imersão. O «S1000»poderá mergulhar a profundidades operacionais ligeiramente superiores a 250 metros e terá uma autonomia de 3 000 milhas náuticas com andamento limitado a 4 nós. Previsto para acolher uma guarnição de 16 oficiais e marinheiros, esta máquina poderá, no entanto, receber mais 6 elementos treinados para o cumprimento de operações especiais. Do armamento deste submersível devem constar 6 tubos capazes de disparar torpedos 'Black Shark' (de origem franco-italiana) ou mísseis de cruzeiro 'Novator', ou, ainda, mísseis anti-navio e/ou engenhos balísticos mar-terra. Dotado da mais moderna aparelhagem de ajuda à navegação, mas não só, este navio é -do ponto de vista concepcional e segundo se diz- próximo dos submarinos russos da classe 'Amur-950', que já despertaram o interesse das marinhas de guerra da República Popular da China e da Indonésia. Os trunfos do «S1000», no mercado internacional de armas, são a sua agilidade, a sua simplicidade de utilização e o seu preço moderado.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
«TEIA MARU»
Este navio japonês é conhecido por ter sido afundado -a 18 de Agosto de 1944, ao largo de Luçon, Filipinas- pelos torpedos do submarino norte-americano «Rasher»; e de, no seu naufrágio, terem perecido 2 665 soldados japoneses e tripulantes. O «Teia Maru» foi, primitivamente, o paquete francês «Aramis», da frota do armador Messageries Maritimes. Navio com um deslocamento de 21 550 toneladas e 172 metros de comprimento por 21,20 metros de boca, o «Aramis» dispunha de um sistema propulsor com uma potência de 15 600 cv e podia atingir a velocidade de 19 nós. Destinado às carreiras do Oriente, este navio (construído nos estaleiros navais de La Seyne-sur-Mer, em 1931) foi apreendido num porto indochinês, em Junho de 1942, pelas forças nipónicas. Transformado, sucessivamente, em navio-hospital e transporte de tropas, o «Teia Maru» participou em variadíssimas operações humanitárias e militares. Integrada no tristemente célebre comboio naval H71, esta unidade foi uma das muitas naves da armada do imperador Hiro Hito a ser destruída, no Verão de 1944, pelos aguerridos submersíveis da 'USS Navy'. O balanço do seu soçobro foi, como já acima se referiu, dos mais trágicos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial.
«SPRAY»
///////////////// O «Spray» (nome que significa 'espuma' em inglês) foi o veleiro do famoso navegador Joshua Slocum; que com ele realizou uma viagem de circunavegação do globo (a primeira de um navegador solitário), que durou 3 longos e palpitantes anos. Esse périplo, iniciado, em 1895, em Gloucester (perto de Boston), serviu de tema a um 'best-seller' da literatura marítima, publicado em 1900 e intitulado «Sailing Alone Around the World». No qual Slocum (que fora oficial da marinha mercante e capitão de navios) demonstrou ser, apesar do seu ar austero, um homem com humor e com dotes extraordinários de escritor. A famosa viagem do «Spray» (assaz curiosa) começou com uma travessia do Atlântico (com escala nos Açores) e prosseguiu até Gibraltar (às portas do mar Mediterrâneo), regresso à América do sul, franqueamento do estreito de Magalhães, navegação do Pacífico até à Autrália (via arquipélago das Samoa) e travessia do Índico com visita do cabo da Boa Esperança (na África do Sul). Na sua derradeira fase compreendeu nova travessia do oceano Atlântico até às Antilhas e, finalmente, o regresso ao ponto de partida. O «Spray» era um pequeno veleiro (oferecido por um amigo), que revelou ter qualidades náuticas excepcionais. Construído num anónimo estaleiro do estado de Massachusetts, foi utilizado, primitivamente, por profissionais da ostreicultura. As suas principais características eram as seguintes : casco de madeira; 2 mastros envergando 94 m2 de velas; 11,20 metros de comprimento por 4,32 metros de boca; 1,35 metro de calado. Desconhece-se qual foi o fim deste veleiro, que inspirou numerosas réplicas.
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